sábado, 12 de fevereiro de 2011

O medo de Talita

Talita tinha medo, apenas medo. Acreditava que não era capaz de se entregar ao amor, se entregar a quem tanto desejava. Era como se seus atos fossem contra sua vontade e controlassem cada movimento do seu corpo.
Não passava batom em seus lábios por que poderia chamar demais a atenção dos outros, não usava saia por que suas pernas lhe pareciam finas demais. Não soltava os cabelos por que lhe parecia muito liso e sem vida. Nada que fizesse lhe convencia que poderia agradar alguém, pelo contrário, apenas lhe dava a certeza de que estava incomodando.
Porém seu corpo fervilhava por dentro, no auge de seus 19 anos, sentia que a qualquer momento poderia explodir de tanto que seus pensamentos aqueciam sua alma. Eles estavam ali presos, embora não parecesse. Embora fosse quase impossível alguém perceber, mas eles estavam ali, lhe corroendo as idéias e lhe dando náuseas de desejo.
E como para toda bomba há um estopim, quando César se aproximava, ela sentia ainda mais medo. Era como se a qualquer momento faíscas pudessem ser produzidas e todo controle que lhe atormentava pudesse se descontrolar. Mas, sentir isso era bom demais. Nesse momento, quando ele lhe sorria ela sentia vontade de pintar os lábios para lhe retribuir o sorriso. Sentia vontade de ficar nua sem precisar de uma saia curta. Tinha vontade de sentir o cheiro daqueles cabelos junto a sua boca, sem receio de agradar alguém, apenas vontade de se entregar aquele momento único.
César não era medo. Era seu desejo refletido na figura de um garoto. Era o frio necessário para apagar as chamas do calor que lhe consumia.
Porém o tempo exige agilidade e não espera. E o medo impõe obstáculos muitas vezes intransigentes. Medo e tempo talvez não combinem e seja uma mistura que provoque inércia. E a inércia transforma-se em acomodação. E a acomodação transformasse em apatia. E a apatia é a ausência de vida, a ausência de tudo o que nos move.
O tempo passou para Talita. E ela provou da mistura do medo e do tempo. Sofreu por antecipação e não viveu seus desejos. Envelheceu e tornou-se amiga da apatia, que lhe foi traiçoeira e não lhe ensinou quase nada. E neste caso, não adiantou que César um dia pudera ser um estopim.
O medo de Talita diante de coisas tão simples lhe travou os sentidos e sentimentos e lhe privou do melhor da vida. Talita não aprendeu que a vida é cheia de surpresas e desafios e que de fato temos que enfrentá-los sem medo ou receio. Ela morreu sem sentir e não descobriu o verdadeiro sentido da vida. 

Um comentário:

  1. O medo nos impede de viver certas experiências que poderiam nos render muitas alegrias e prazeres...

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