As últimas pesquisas realizadas pelo programa de prevenção das Nações Unidas indicam que no ano de 2009, o número de brasileiros infectados pelo vírus da AIDS, estaria entre 460 mil e 810 mil pessoas, dando ao Brasil um terço dos portadores na América Latina.
Fundada em 1990, no mesmo ano em que Cazuza faleceu vítima da Aids, a instituição “Viva Cazuza” iniciou seus trabalhos junto ao Hospital Universitário Gaffrée e Guinle no Rio de Janeiro. Hoje, realizando um projeto independente, a ONG, fornece medicamentos, exames e assistência a pessoas carentes portadoras do HIV. Em 1993, após conseguir a concessão de uso de um imóvel, da Prefeitura do Rio de Janeiro, montou a primeira Casa de Apoio Pediátrico do Município com a finalidade de atender crianças e adolescentes infectadas.
Em entrevista, Pedro Chicri, pedagogo e supervisor da instituição, há quinze anos, revelou importantes dados e constatações desta sociedade que há duas décadas trabalha para o benefício dos portadores do HIV.
Quantos pacientes são amparados pela ong atualmente?
Atualmente, nós temos em regime de internato na nossa casa de apoio pediátrico, 25 bebês, crianças e adolescentes. E, temos 150 pacientes adultos que são atendidos mensalmente, e que através do trabalho de apoio social são apoiados com a intenção de trabalhar a questão da adesão ao tratamento, porém não moram na instituição.
Porque a exclusividade para o atendimento a jovens entre 3 meses e 17 anos?
Na verdade não é uma exclusividade. Não negamos atendimento, apenas temos um perfil de trabalho. O nosso público alvo são crianças portadoras do HIV/AIDS. E com o passar do tempo e o aprendizado, agente vai mudando, por que a demanda também vai mudando. Hoje em dia nós trabalhamos com bebês, que até então não recebíamos, por que eles poderiam apresentar negativação da doença até 18 meses. Também temos crianças que na verdade foram ficando e viraram adolescentes e daqui a pouco vão ficar adultos. Antigamente existia uma prática de estimar um tempo de vida, hoje não existe mais isso. Em função de algumas mudanças adaptamos nossa estrutura de atendimento, tanto em espaço físico, quanto profissional. E felizmente agora temos uma boa quantidade de internos entrando na adolescência.
Um trabalho social que lida com pacientes vítimas de grande preconceito pela sociedade exige um tratamento diferenciado? Como a instituição encara este fato?
Sim. Trabalhamos a questão da sorologia. Dizemos para eles desde cedo. Contando a historinha do bichinho do sangue e como é transmitido. Com os adolescentes abordamos a sexualidade. E esperamos que estas crianças sejam mais preparadas para uma vida adulta. Porém o preconceito existe. Hoje de uma maneira mais velada, o que pode ser muito perigoso. Antigamente era uma coisa mais nítida. E uma maneira de lidarmos com este assunto é fazendo campanhas em escolas, nas comunidades e com os pais dos alunos. O nosso objetivo é trabalhar com a informação. E fazer com que essas crianças sejam amparadas, através da nossa casa e do nosso trabalho. A verdade sempre, mas com respeito aos desejos das crianças. Se eles não quiserem dizer que são soropositivos, temos que respeitar esse sigilo.
Em 21 anos de existência foram muitas as dificuldades enfrentadas pela ong?
Sim, embora tenhamos toda esta estrutura. A Lucinha Araújo é uma pessoa que preza pela limpeza e organização. Quer dá sempre o melhor para eles. Porém para manter este projeto há um custo muito alto. A maior despesa é com o pagamento da equipe de profissionais que estão aqui todos os dias. Temos quase que um funcionário por criança. E percebemos ao longo desses anos, que para esse tipo de projeto, o voluntarismo não funciona. Para manutenção temos recebido cada vez menos doações
O projeto tem parceria com algum nível do governo?
No momento, não. Ás vezes, conseguimos algumas parcerias com empresas por períodos determinados. Em datas festivas do ano, as pessoas doam mais. Mas, precisamos trabalhar diariamente para manter esta estrutura. No caso dos direitos autorais do Cazuza, hoje o artista ganha muito fazendo show, mas artista falecido não faz show. Manter a imagem viva do Cazuza é um desafio que a Lucinha busca todos os dias de sua vida, e toda a renda captada é revertida para a instituição. Será lançando brevemente um terceiro livro que conta à história da criação da “Sociedade Viva Cazuza”. E assim, vamos tentando criar maneiras de captar recursos.
Nos últimos anos vocês poderiam fazer alguma observação quanto ao crescimento do número de portadores que procuram a sociedade?
A AIDS mudou de cara. No ínicio ocorreu a epidemia e todo mundo quis saber o que era a doença. Existia a falta de informação. Depois as pessoas foram se informando, se preocupando menos e agora menos ainda. Aí começou a ocorrer à banalização e hoje não se fala mais em AIDS. As pessoas acham que ela tem cura, mas ela continua matando. O índice de contaminação continua elevado. Agora há uma tendência a feminilização da doença, ou seja, as mulheres estão se contaminado mais. Os mais velhos estão tendo uma vida sexual mais ativa por causa do viagra. Há um crescimento e uma mudança de foco. A AIDS já não é mais o “câncer gay”. A maneira mais eficiente é se trabalhar com a prevenção. Fala-se pouco em prevenção, se faz pouca prevenção. Parece que existem datas para se prevenir, mas a AIDS mata o ano inteiro. As pessoas esquecem, porém existe a necessidade de um trabalho mais efetivo nas escolas em educação sexual e prevenção. Coisa que está faltando muito hoje, por isso o crescimento desordenado de casos da doença. Há a ilusão do coquetel, mas esquecem dos efeitos colaterais.
Como funciona a aceitação dos pacientes com o tratamento e o compromisso com a ONG?
Com relação às crianças que moram aqui, a adesão é mais fácil. A criança que toma o remédio todo dia, já está bem adaptada. Diferente do adulto, que terá que se adaptar a uma nova realidade. Difícil é justamente o trabalho de adesão. E é neste momento que deve existir o acompanhamento, pois o paciente melhora e acha que não deve mais tomar a medicação, depois ele perde o esquema de tratamento e acaba pegando uma doença oportunista. A dificuldade maior do paciente é dá esta continuidade ao tratamento. A AIDS não tem cura, mas se tratada, pode garantir uma quantidade aliada a uma boa qualidade de vida. Hoje temos crianças que têm 18 anos de vida e são portadoras do vírus.
A grande diferenciação da sociedade “Viva Cazuza” é o apoio à reintegração social desses jovens, esta idéia é um processo muito difícil?
Sim. É um processo difícil para nós, pois às vezes acompanhamos uma criança desde muito cedo e depois vemos ela partir. Então, há um envolvimento emocional da criança e da equipe. Mas, sabemos que a família é muito importante. É estrutural. Então, não queremos em momento algum, perder este vínculo da criança com seus familiares. Sabemos que algumas reintegrações são favoráveis e outras não, mas isso não é uma decisão que cabe a nós. Quem determina é a equipe do juizado. Sendo tudo realizado em conjunto, para ser bom principalmente para a criança. Esse processo é trabalhado com a criança e nossa equipe.
Como definiria o trabalho da “Sociedade Viva Cazuza” para as pessoas?
Certamente é um trabalho baseado no amor. Um exercício que se não tiver amor, não sobrevive aos desafios. E isso, a Lucinha Araújo soma freqüentemente. Transformando seu luto em uma grandeza de atitude, que contagia a toda equipe e nos dá força dia a dia para vencer todos os obstáculos. Assim, tudo isso se resume a esse sentimento tão nobre, e acaba se irradiando em nossas crianças.
Conheça este lindo trabalho : http://www.vivacazuza.org.br/
Conheça este lindo trabalho : http://www.vivacazuza.org.br/




