Sinceramente nunca pude entender o verdadeiro significado da presença paterna em minha vida. Não como a figura responsável pela segurança, pela força ou pelo sinônimo da responsabilidade na família.
Este pensamento se compôs diante da porcentagem das famílias brasileiras, cujos chefes são as mães, que fazem o papel de pai e mãe ao mesmo tempo, e fez parte da minha realidade. Logo, minhas referências paternas se distribuiram em meus tios, meu avô ou algum outro pai que eu observava e admirava alheiamente.
A ausência paterna em minha vida não foi tão dolorosa quanto muitos julgam ou vivem. Minha mãe, uma heroína, soube transformar um problema numa maravilhosa solução. E sua perseverança ocupou todos os espaços de uma possível necessidade de paternidade.
Mas, ainda assim, houve um momento que culpei meu pai por muitas coisas que poderiam ser diferentes, e lá no fundo por mais que eu negasse, senti sua falta. Porém, isso eu procurei canalizar para a rebeldia sem causa da adolescência. Mas, detalhes à parte, no fim de tudo me transformei em alguém que à frente de ruins perspectivas chegou longe, bem longe e ainda tem muito a conquistar. Eu encontrei a segurança por mim mesmo, na escola da vida.
Mas é engraçado. Mesmo em sua ausência, meu pai me deixou heranças. Não apenas genéticas, pois isso é fato. Mas, também para a vida. As suas falhas me ensinaram a não falhar como ele, e melhor me fizeram querer ser muito mais humano. Tudo o que um dia enxerguei e julguei errado, me fizeram compreender que suas atitudes serviram de exemplo para que eu buscasse caminhos diferentes.
E hoje, quando penso em meu pai, creio que ele nunca foi ruim. Creio que ele apenas não pôde suportar o peso de seus próprios erros. E quando no silêncio das minhas orações peço por aqueles que amo, muitas vezes tenho um lugar reservado para seu nome.
E agora, sou eu quem tenho a oportunidade de não cometer alguns erros. Eu que presenteado com uma dádiva divina, descubro sozinho o significado antes desconhecido. Aos poucos, entendo o que é ser um herói de verdade. O que é amar incondicionalmente. Descubro o que é ser o exemplo, a força, aquele que dará o ombro a qualquer momento para acalentar as lágrimas do filho.
Não me sinto obrigado. Sinto a sensação mais sublime que poderia ter sentido. Acho que encontrei um dos caminhos da felicidade. E cada sorriso, a cada abraço de urso, a cada palavra inocente ou brincadeira, eu sei que estou descobrindo o verdadeiro sentido da palavra pai e não quero mais ter que duvidar.

